Como TV motivou o sequestro, morte e ocultação de corpo do menino Lázaro há um ano em São Mateus

 
A Justiça pronunciou, ou seja, enviou para julgamento no Tribunal do Júri,  seis homens acusados de envolvimento no sequestro, assassinato e ocultação de cadáver do menino Lázaro Airam dos Santos, de 17 anos. A decisão de pronúncia saiu na segunda-feira (21), e o sigilo dos autos foi levantado nesta quarta-feira (23), após pedido do Ministério Público, reiterado pela imprensa. O crime ocorreu em junho de 2025, no município de São Mateus, no Norte do Espírito Santo.Publicidade

Entre os acusados que se sentarão no banco dos réus está o cabo da Polícia Militar Denis Marchiore, que está preso preventivamente, além dos réus Lucas Eduardo Soares Chaves dos Santos, Walisson Pereira Carvalho, Felipe Silva Rodrigues, Alex Nascimento Paixão e Yan Krislan Pereira Dias. Na mesma decisão de pronúncia, o juiz manteve a prisão preventiva de Denis Marchiore, Lucas Eduardo e Walisson Pereira, enquanto concedeu a manutenção da liberdade provisória com cumprimento de medidas cautelares a Felipe Silva, Alex Nascimento e Yan Krislan.

O grupo responderá perante o Júri Popular pelos crimes de homicídio qualificado por motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima, além de sequestro de menor de 18 anos, ocultação de cadáver e associação criminosa armada.
Entenda a dinâmica do crime, segundo a decisão e as investigações
Segundo a decisão de pronúncia e os autos do processo, a sucessão de fatos que culminou no homicídio teve início em 12 de junho de 2025, motivada pela recuperação de um aparelho de televisão furtado da residência do réu Alex Nascimento.
A vítima, o menino Lázaro, e o local onde o corpo foi encontrado. Crédito: Montagem Rede Notícia
Um amigo de Lázaro havia adquirido o televisor de terceiros e solicitado que o adolescente guardasse o objeto em sua casa. Naquela manhã, o aparelho foi anunciado para venda nas redes sociais. Ao reconhecerem o objeto, os acusados simularam interesse na compra para atrair o anunciante e marcaram um encontro no Centro de São Mateus, nas proximidades de um conhecido restaurante da região.

Lázaro foi ao local para entregar o televisor. Segundo o depoimento prestado em juízo pela testemunha e delegado de Polícia Civil, Dr. Marcelo da Silva Cruz, o adolescente foi abordado pelo grupo e, embora tentasse explicar que apenas fazia um favor a um conhecido, sofreu intimidações e agressões físicas no local. Conforme apurado pela Polícia Civil, a vítima foi pressionada a entrar no veículo Ford New Fiesta de cor branca e teto preto, pertencente ao policial militar Denis Marchiore, sendo acompanhada no banco do carro pelo réu Lucas Eduardo.
Pistas, inteligência policial e o encontro do corpo
Segundo o investigador da Polícia Civil Valmir Rodrigues Souza, as diligências iniciais basearam-se na análise de imagens de câmeras de segurança divulgadas em redes sociais e mídias locais, que registraram o momento em que o menor era colocado no veículo. A partir das filmagens, a equipe identificou a participação dos demais suspeitos e os veículos utilizados na ação.
A análise de dados de inteligência e cerco eletrônico foi detalhada pelo policial civil Hugo Cesar Ricardo. Segundo a testemunha técnica, o cruzamento de dados de estações rádio base (ERBs) de telefonia apontou que, após a abordagem inicial no centro da cidade, o veículo do policial Denis e um Fiat Siena cinza pertencente ao réu Walisson convergiram na mesma janela temporal para a região sul do balneário de Guriri. A triangulação dos sinais telefônicos de Denis, Lucas e Walisson permitiu à Polícia Civil delimitar a área de buscas na região.
Segundo a testemunha e policial civil Luiz Tadeu Rodrigues, o cadáver do jovem foi localizado cerca de 21 dias após o desaparecimento, em uma área de mata de restinga próxima à via de acesso à Barra Nova. As equipes policiais deslocaram-se ao ponto após informações fornecidas por um morador local. O corpo de Lázaro foi encontrado sepultado em uma cova rasa de aproximadamente 50 centímetros de profundidade, de joelhos e com as mãos atadas para trás. Exames periciais realizados nos automóveis identificaram ainda vestígios reagentes compatíveis com sangue humano.
O que dizem os réus
Em seus interrogatórios prestados perante o Juízo, os acusados apresentaram versões distintas:

Denis Marchiore (cabo PM):  Negou qualquer envolvimento com o homicídio, sequestro ou ocultação do cadáver. Afirmou ter ido ao local em seu dia de folga após receber um chamado de Walisson para prestar apoio policial na recuperação da TV. Alegou que o adolescente entrou voluntariamente em seu carro para indicar onde estaria o suposto autor do furto no bairro Ribeirão, mas que o jovem teria aberto a porta do veículo em movimento e fugido a pé.
Lucas Eduardo Soares Chaves dos Santos: Negou a prática dos crimes e alegou que acompanhou Walisson para ajudar na recuperação da TV. Afirmou que a vítima entrou espontaneamente no veículo do PM e confirmou a versão de que o jovem teria desembarcado do carro em movimento e fugido.
Walisson Pereira Carvalho: Negou autoria no assassinato e afirmou que apenas prestou auxílio no deslocamento até o local para reaver o televisor. Declarou que acionou o policial Denis por conhecê-lo de eventos e que não presenciou atos de violência grave contra o jovem.
Felipe Silva Rodrigues, Alex Nascimento Paixão e Yan Krislan Pereira Dias: Confirmaram ter ido ao local com o intuito exclusivo de recuperar o aparelho de televisão de propriedade de Alex. Afirmaram que se retiraram da cena assim que reouveram o bem e sustentaram que não sabiam e tampouco participaram do assassinato de Lázaro.

Julgamento no Tribunal do Júri
Ao proferir a decisão de pronúncia, o juiz ressaltou que nesta fase processual cabe ao juiz verificar a prova da materialidade e indícios suficientes de autoria, sem adentrar antecipadamente no mérito da condenação. Com a pronúncia, os seis réus serão submetidos a julgamento perante o Conselho de Sentença do Tribunal do Júri da Comarca de São Mateus.
Defesas:
A reportagem tenta localizar as defesas dos demais réus citados no texto. Este espaço segue aberto para posicionamento.

 
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